terça-feira, 6 de agosto de 2013

A revolta do Vintém

Por volta de 1880, a cidade do Rio de Janeiro era a capital do império brasileiro e tinha cerca de 192 mil habitantes. Os bondes eram o transporte de massa da época e quatro companhias dividiam entre si as áreas da cidade. Três das quatro companhias transportaram em 1879 mais de 20 milhões de passageiros. No final de 1879, um imposto que o governo imperial havia criado, faria com que as passagens do bonde aumentassem em 20 réis, o que equivalia a um vintém. Este imposto, muito impopular, deu origem a manifestações que ficaram conhecidas como a revolta do vintém.

            No dia 28 de dezembro de 1879, uma multidão foi às ruas na capital do Império brasileiro, o Rio de Janeiro, se manifestar contra o imposto que aumentava no preço do transporte urbano.

            O objetivo da população era revogar a lei que estabeleceu o aumento dos bondes. Reunidos em frente ao palácio imperial, no bairro de São Cristovão, cerca de 5 mil manifestantes exigiram que o imperador fosse ao encontro deles para debater e receber as suas reivindicações. As forças policiais acompanharam a caminhada dos manifestantes, fazendo bloqueios em determinados trechos. Mas não houve negociação, pois o Imperador aceitou conversar apenas com uma comissão formada por poucos manifestantes. O grupo desejava que o imperador viesse ao encontro do povo e, por isso, não chegaram a nenhum consenso.

            Poucos dias depois, com o início da cobrança do vintém, começaram a ocorrer focos de protestos violentos em vários pontos da cidade, principalmente nas ruas do centro, que duraram pelo menos quatro dias, marcados pela fúria da população que depredava os bondes e armava barricadas para enfrentar a polícia. As manifestações públicas coletivas de protesto popular conhecidas como Revolta do Vintém estenderam-se entre 28 de dezembro de 1879 e 4 de janeiro de 1880.

            Os protestos foram marcados pela depredação de bondes e conflitos diretos com as forças policiais. Em sinal de protesto contra a cobrança do vintém, os manifestantes tomavam os bondes, espancavam os condutores, esfaqueavam os animais usados como força de tração, despedaçavam os carros, retiravam os trilhos e, com eles, arrancavam as calçadas. A polícia enfrentou as manifestações atirando contra as pessoas. Falou-se em 15 a 20 feridos e em três a dez mortos.

            Os jornais mais conservadores falavam na convocação de mobilizações de protesto, pediam que se respeitasse a lei e a ordem, dizendo que o governo tolerava sempre a manifestação de “representações respeitosas” e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao invés de protestar, direcionassem sua energia para a eleição de bons políticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da população.

            Nos dias que se seguiram à Revolta do Vintém, depois de interrompida a arrecadação pelo protesto popular, a regularização do imposto foi revogada e os principais integrantes do governo ligados ao episódio foram substituídos.

            A insatisfação do povo demonstrada na revolta do vintém não foi um fato isolado e nem ficou restrita ao valor da passagem. A mobilização popular acabou por questionar também, e cada vez mais, a escravidão e a própria monarquia.



Fontes: Texto de José Murilo de Carvalho, A guerra do vintém.


Texto de Ronaldo Pereira de Jesus, A revolta do vintém e a crise na monarquia.




segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um rio


“As lembranças me surgem velozes como nuvens. Recordo aquela vez em que Sabão se encomendou de uma expedição: queria subir o rio até a nascente. Ele desejava decifrar os primórdios da água, ali onde a gota engravida e começa a missanguear o rio. Juca Sabão muniu-se de mantimentos e encheu a canoa com os mais estranhos e desnecessários acessórios, desde bandeiras a cornetas. Demorou umas tantas semanas. Regressou e fui o primeiro a recebê-lo, nas escadas do cais. Olhou-me, cansado, e disse:

            - O rio é como o tempo!

            Nunca houve princípio, concluía.  O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo, é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício.

            - O rio é uma cobra que tem a boca na chuva e a cauda no mar.”

Mia Couto
Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

 

Um rio

            Cada mulher, cada homem é um rio. Eu, portanto, sou um rio. Um rio que se iniciou antes mesmo de mim e segue, entre curvas e declives, para o seu fim/recomeço inexorável, onde todos os rios terminam: o mar.

            Mas o rio não é só o mar que ele se torna, mas também a fonte que o origina, o caminho que percorre (contornando e transbordando obstáculos), os afluentes que o preenchem e o impulsiona a seguir em frente.

            O rio da minha vida é cheio de afluentes: família, amigos, trabalho, militância, estudos são algumas das correntes de água que confluem para a minha vida-rio. Mas não sou nenhum destes afluentes, sou o rio e neste rio as águas estão juntas e misturadas, não dá para separar as gotas de cada afluente, não dá para separar as jornadas da nossa vida.

            Eu sou este rio que corre. Sou um pai que prepara as aulas enquanto seu filho dorme, sou um professor que aproveita uma brecha em sala para conversar com um aluno sobre o ensino religioso na escola, sou um pesquisador que escuta as entrevistas que fez enquanto segue para a assembleia de professores, um militante que sai no meio do ato de greve para chegar a tempo no CESPEB, um estudante que assiste as aulas da pós graduação enquanto manda mensagens para saber se a febre do filho baixou.

            Às vezes os afluentes são intensos demais. O rio não se contém nas margens que o oprime. Sou rio, sou humano, não dou conta, transbordo. E, neste caos, minhas margens se tornam mais férteis, nascem árvores, frutos e folhas que tornam o rio da minha vida ainda mais vivo. Livros, artigos, conversas inesperadas, encontros planejados, laços de militância, são alguns dos frutos que chovem em mim.

            O rio da minha vida não tem deltas, não se compartimenta, mas se transforma. Está em eterna e incompleta construção. Mergulho em mim mesmo e percebo: não sou aquele rio que começou a jornada. Sou outro. Minha água me mantém vivo, mas não mata a minha sede. Sigo transbordando pedras e contornando montanhas. Desaguo no amanhã.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vergonha no Vasco

Absurdos inaceitáveis na morte Wendel Junior de 14 anos em um teste para a base do Vasco da Gama, meu time:

1: Não havia médico nem ambulância no local. Quer dizer, colocam os garotos para correr desesperadamente atrás de uma bola, nesse calor infernal, naquela que pode ser a grande chance de realizar um sonho e se alguém passar mal não tem nenhuma estrutura de apoio. Deve ser isso que chamam de "otimizar os custos"...

2: Wendel estava sem café da manhã e sem ter jantado no dia anterior. O Vasco não dá nenhum alimento pois o garoto ainda não havia sido aprovado na peneira. Ou seja: se morrer não há problema, pois não faz parte do "patrimônio humano" do Vasco.

3: O centro de treinamento onde ocorreu a tragédia é de um conhecido empresário, Pedrinho Vicençote, que recebe em troca 10% dos direitos sobre os jogadores. Ou seja: os dirigentes do Vasco terceirizaram a base e usam isto como desculpa para não ter responsabilidade sobre a estrutura desumana da peneira.

Tanto Dinamite quanto Eurico são dirigentes consevadores e antidemocráticos. Mas Dinamite é mais moderno. As novidades "modernizadoras" de Dinamite: laços estreitos com empresários e subserviência à globo. Não à toa, a imprensa evita condená-lo pela morte do adolescente. Mas, justamente por ser vascaíno, não posso me calar contra um assassinato de um jovem aspirante em nome do lucro. Os Dirigentes do Vasco devem responder por este crime!

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Homem que via o diabo

“Livrai-nos de todo mal, amém”. Estas foram as últimas palavras de João antes de dormir, as mesmas que ele rezava há décadas. Suas preces seriam atendidas.

Após um sono agitado, João acordou atrasado para o trabalho e com muita dor de cabeça. Ainda estava na cama quando ouviu uma voz, quase um sussurro: “hoje você verá o Diabo onde ele realmente está”.

Abriu os olhos assustado e procurou o dono da voz, mas, temente a Deus, rapidamente compreendeu que Ele lhe havia falado. Ficou emocionado, confuso, excitado e, principalmente, se sentiu recompensado. Afinal, não havia dúvida de que os anos de retidão, fidelidade absoluta a Deus e fé inabalável o tornaram digno de receber este dom.

Mas João estava atrasado e revelações religiosas não impediriam o patrão de descontar o seu salário. Botou uma roupa e saiu correndo, sem ao menos lavar o rosto. No caminho, ele pensava, entre curioso e assustado: “onde, como, quando eu verei a ação do tinhoso?”.

No ônibus lotado e quente um homem alto e forte se aproximava de João quando ele viu o Diabo pela primeira vez. Satanás estava tatuado nas mãos, no rosto e em toda a pele escura daquele homem. João saiu do ônibus muito antes do seu ponto, escapando assim do assalto iminente. A condução seguinte demorou um pouco.

Cada vez mais atrasado, estava apertando o passo quando um obstáculo apareceu na sua frente: um mendigo sujo, fedido e maltrapilho pedia alguma coisa a João, que não entendeu nem fez questão de entender o que ele disse. Olhou de relance para o pedinte e viu cordas demoníacas saindo dele e sendo controladas pelo demônio. Aquele mendigo, coitado, estava possuído, era um mero títere de satanás. Afastou-se daquele condenado.

Chegou, finalmente, no escritório. Após levar o esporro regulamentar pelo atraso, João foi tomar um cafezinho para reordenar as ideias. Um colega fazia o mesmo enquanto devorava com os olhos a nova funcionária. Como quem conta um segredo, o colega cochichou: “olha a roupa com que ela vem trabalhar, olha o jeitinho de piranha, essa daí vai passar na mão de todo mundo”. João não conseguia prestar atenção no colega, pois via o diabo se esfregando nos quadris da funcionária. Decidiu ir trabalhar para tirar aquela imagem da cabeça, afinal, “mente vazia é oficina do cão”.

Trabalhava freneticamente para desfazer a má impressão deixada pelo seu atraso quando foi interrompido por outro colega. Ele queria convidá-lo para uma assembleia onde os funcionários se organizariam para exigir melhores salários e condições de trabalho. Tudo que João não queria era ser visto com aquele desordeiro, ainda mais agora que via o diabo, vestido de terno e gravata, controlando a sua fala. “Eu sabia, essa revolta toda tem motivação política, esse cara quer se dar bem às minhas custas!”, João continuou fingindo que ouvia o sujeito até conseguir dispensá-lo com toda a educação.

Fez serão na hora em que a assembleia estava marcada para deixar bem claro para o patrão de que lado estava. Depois voltou pra casa exausto e ainda deu o azar de pegar um baita engarrafamento. Estava rolando uma festa na rua que atrapalhava o trânsito de quem, como ele, trabalha muito e não tem tempo para vadiagem. Quando o ônibus passou lentamente pela celebração viu dois homens se beijando e o diabo gozando com a cena. Pensou: “pra que diabos eu tenho que ver essa pouca vergonha? Deus deve ter um plano para mim.”. Neste momento começou a ver o diabo por toda a festa. Ouviu uma batucada e viu o diabo dançando, viu pessoas bebendo e satanás saciando a sua sede. “Como as pessoas podem chamar uma manifestação desta de cultura?” vociferava, enquanto repassava na memória espaços onde o diabo deveria pular, brincar, gozar e se divertir, como rodas de jongo, de capoeira, de funk, terreiros de Candomblé e de Umbanda.

João chegou em casa exausto e sujo, não tivera tempo de tomar banho de manhã. Foi um dia muito cansativo e proveitoso, pois serviu para reafirmar todas as suas certezas. Restava a João responder a uma questão: como combater um diabo que está em tantos lugares? Era melhor pensar nisto no dia seguinte, estava na hora de tomar banho, deitar, rezar e dormir.

Ao lavar o rosto percebeu algo estranho no seu olho. Aproximou-se do espelho até deixa-lo esfumaçado pela sua respiração, só aí conseguiu ver com clareza o pequeno diabo, risonho e debochado, que habitava o seu globo ocular. Ele estava lá o tempo todo e aparecia em tudo que João olhava. Finalmente entendeu onde realmente estava o diabo. Com o susto e a vergonha, ficou cego por alguns minutos, mas começou a enxergar.

sábado, 17 de setembro de 2011

Avaliando o SAERJ


Questão 1) A prova do SAERJ foi feita por quem?
(A) Pelos professores de cada escola, conhecedores de como anda o processo de ensino e aprendizagem na sua comunidade escolar.
(B) Pelos professores da rede estadual, após se reunirem e debaterem o desenvolvimento da educação e o que deve ser valorizado em uma avaliação diagnostica da rede estadual.
(C) Pelo secretario de educação do Rio de Janeiro, Wilson Risolia, já que sua formação profissional (formado em ciências econômicas) o torna capacitado para produzir tal avaliação.
(D) Por pessoas sem nenhum vínculo com a rede estadual de educação e, portanto, incapazes de saber o que precisamos realmente avaliar nas escolas.

Questão 2) As provas do SAERJ são apenas de português e matemática por que:
(A) O objetivo não é avaliar o aluno e a escola globalmente, e sim estabelecer um ranking que estimule a rivalidade entre as escolas e entre os professores.
(B) São as únicas matérias que realmente importam, as outras foram criadas com o único objetivo de aborrecer os alunos e obrigá-los a ficar na escola mais tempo.
(C) São as únicas matérias que caem no ENEM e nos vestibulares. Como o SAERJ é um preparatório para concursos, estas duas matérias são mais do que suficientes.
(D) O governador estava muito preocupado com a copa e as olimpíadas para pensar em questões menos importantes como a educação e acabou se esquecendo de algumas matérias.

Questão 3) Caso uma escola não vá bem na prova do SAERJ, qual será a reação do governo do estado?
(A) Reunir a comunidade escolar (professores, funcionários, alunos, pais), ouvir e atender as suas reivindicações para melhorar a educação.
(B) Diminuir o número de alunos por turma, melhorar a estrutura das escolas, aumentar o salário dos profissionais de educação e abrir novo concurso para acabar com a falta de profissionais.
(C) Lavar as mãos e respirar aliviado, afinal, agora o governo pode culpar os profissionais de educação e os alunos pelo fracasso escolar.
(D) O governador e o secretário de educação pedirão desculpas pela sua incompetência e prometem renunciar aos seus cargos caso o resultado se repita.

Questão 4) (questão aplicada na greve de 2011) Qual das conquistas abaixo foi obtida sem luta?
(A) Direitos trabalhistas
(B) Estado Laico
(C) Sufrágio Feminino
(D) Abolição da Escravidão
(E) Nenhuma das opções acima

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Um pedido para o pessoal de Teresópolis

Não confie, não tenha fé, não acredite em nenhum político.

Se um candidato, um vereador, um prefeito, um governador, pedir um "voto de confiança", desconfie.

Não tenha fé em nenhum político. Eleição não é religião, não é preciso crer acima de tudo, principalmente acima dos fatos.

O candidato não é (nunca) seu amigo, não é preciso dar uma "forcinha" pra ele.

Um sujeito pra virar prefeito, por exemplo, teve que lidar antes com vários conflitos de interesse, dentro e fora do seu partido, se equilibrando sobre as pressões que recebia: grupos de empresários; fazendeiros; líderes partidários; religiosos; intelectuais; associações de moradores, etc.

Resumindo: o prefeito só se move por pressão. Só há uma maneira pra população fazer valer seus interesses: organização, mobilização, pressão.

Nem Tricano foi a salvação, nem Petto, nem Jorge Mário, nem Robertão seria, nem Arlei será. Ninguém é solução.

Sempre que alguém diz "nesse eu confio, posso dormir tranquilo", está dando a senha para o prefeito atender a outros interesses no calar da noite e depois tirar seu sono.

As notícias que recebo é que população de Teresópolis foi pra rua pressionar pela queda do prefeito. Parabéns pela luta, é um começo. Mas mesmo depois que o impeachment for concluído, eu peço: não saiam das ruas.

(este pedido vale para todas as cidades, a minha, inclusive)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

quinta-feira, 9 de junho de 2011

plano de metas do SEPE para a educação pública estadual

META 1: NENHUMA CRIANÇA SEM ESCOLA:
. Construção de escolas e garantia de atendimento em todas as etapas de ensino.
. Diminuição do número de alunos por turma (20 alunos nas séries iniciais, 25 nas demais)

META 2: NENHUM ALUNO SEM PROFESSOR:
. Concurso imediato para todas as disciplinas.
. Retorno imediato da matriz de 30 tempos e ampliação gradativa da grade curricular.
. Ampliação gradativa do horário de permanência dos alunos na escola

META 3: NENHUM PROFISSIONAL DESVALORIZADO.
. Valorização salarial e profissional.
. Antecipação de todas as parcelas da Incorporação do Nova Escola.
. Reajuste emergencial de 26%.

META 4: NENHUM PROFESSOR SEM ESCOLA.
. Lotação dos professores em apenas uma escola.
. Fim da perda da lotação por motivo de licença médica.
. Lotação dos Docentes II sem perda de direitos.

META 5: NENHUMA ESCOLA SEM FUNCIONÁRIO.
. Concurso imediato para funcionários administrativos.
. Fim da terceirização.
. Revisão do quantitativo de funcionários, respeitando o tamanho e o número de alunos de cada 4 unidade.
. Normatização das tarefas de cada setor administrativo
. Pagamento imediato dos enquadramentos por formação do magistério
. Pagamento imediato do adicional de qualificação para todos os professores.
. Garantia do direito à licença-prêmio.

META 6: NENHUM PROFISSIONAL SEM DIREITO À FORMAÇÃO.
. Licença remunerada para estudos
. Convênios com Universidades públicas para formação continuada de professores e funcionários

META 7: NENHUMA ESCOLA SEM ESTRUTURA.
. Construção de quadras poliesportivas em todas as escolas
. Construção de bibliotecas em todas as escolas

META 8: NENHUMA EDUCAÇÃO SEM DEMOCRACIA.
. Processo de escolha do dirigente escolar através de consulta direta
. Garantia de grêmios livres
. Autonomia das equipes pedagógicas para criação\implementação dos Projetos Pedagógicos

META 9: NENHUM EDUCADOR DISCRIMINADO.
. Ato de Investidura para os Animadores Culturais.
. Paridade para Aposentados.

META 10: NENHUMA ECONOMIA NOS INVESTIMENTOS EM EDUCAÇÃO.
. Ampliação dos recursos destinados à educação estadual, elevando até 35% de todas as receitas do
estado aplicadas exclusivamente na educação estadual.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Como Nasce um torcedor

Emoldurada
(Ivan Lins/Celso Viáfora)

“Eu vi a passarela
Refletida na luz dos olhos dela
E na tela do olhar da minha amada
Emoldurada
Passava a Portela
Cantei pra nós
Chorei por ela
Com Monarco e Paulinho da Viola
Eu que sempre chorei por outra Escola
Amei a Portela por ela
Ali, naquela hora”


O que nos faz torcer para um time de futebol? Deve existir um milhão de respostas a esta pergunta, além de centenas de teses sociológicas, históricas, antropológicas e até biológicas. Descobrir qualquer resposta sobre este assunto é muito difícil, acho que é mais fácil desmascarar algumas mentiras.

Primeira mentira, ou no máximo, meia verdade: “eu torço para este time porque é o melhor.” Pode até ser que, durante a pré-adolescência, o sujeito tenha visto uma grande fase deste time, um grande título, um grande jogo ou algo que o valha e que isso tenha influenciado a sua escolha. Mas, não, o sujeito não torce para o “melhor”. O futebol está longe de ser uma competição de produtos regulada pela lei de mercado onde o “melhor” é mais consumido. Fosse assim, quem torceria para o Santa Cruz, há tempos sem avançar nas competições? E é tão bonito ver a sua torcida se manifestando, ver tantas camisas do Santa na rua mesmo quando o time já perdeu tudo o que podia no ano...

Outra mentira sobre esta questão se refere ao tipo de torcedor de cada torcida: tal torcida tem muito gay, tal torcida tem muito ladrão, tão torcida é de elite, etc. Estas teorias, muito repetidas nas mesas redondas do bares da vida, não se sustentam em nenhuma pesquisa sobre torcidas de futebol. Há alguns anos, em São Paulo, um programa de esporte fez uma pesquisa (sem nenhuma base estatística, diga-se de passagem) para saber a maior torcida presente na passeata do orgulho gay, em São Paulo. A torcida do Corinthians era a maior, para alegria dos homofóbicos são paulinos e palmeirenses do programa. Ouso dizer que a pesquisa estava certa e que a torcida do Corinthians é a maior também entre os paulistas carecas, ente os mais velhos, entre os presidiários, entre os mais ricos, etc. etc. Mas não é isso que afirma o mito das torcidas.

No Rio, o mito das torcidas pode ser resumido de maneira grosseira assim: Os tricolores são da elite, os flamenguistas o povão, os vascaínos os operários e os botafoguense os intelectuais. Nem sei, ao certo, se há alguma verdade nestes estereótipos (ou em outros que existam). O que eu sei é que ninguém escolhe time por isso. Já estou até vendo: “realmente, o flamengo é o time da massa. Portanto, acredito que esta escolha é a mais adequada para mim. Vou avaliar com cuidado as opções e confirmarei a minha decisão amanhã.” – João, 11 anos. Ou então: “O Vasco é o primeiro time a ter em seu plantel uma grande quantidade de jogadores negros. Eu, negro que sou, torcerei por este time.” – Fábio, 8 anos. Isto é uma grande piada. O que ocorre é o inverso: primeiro se escolhe o time, depois se busca argumentos para dizer que aquele time é o tal.

Portanto, volto à mesma questão: como se escolhe um time? Eu tenho uma certeza: torcer por um time de futebol é um fenômeno social: vamos aos jogos com amigos, conversamos sobre futebol com colegas, desconhecidos e até inimigos, abraçamos o vendedor de picolé na hora do gol. A escolha do time, obviamente, também é um fenômeno social. Muitos (a grande maioria, talvez) são influenciados pelos pais, ou parentes. Outros pelos amigos. E alguns, influenciados por aquele colega chato da escola, decidem torcer para o seu maior rival.

Eu sempre acreditei que havia decidido ser Vasco após ver um FLAXFLU no Maracanã. Fui com a minha mãe (flamenguista) e o namorado dela na época (tricolor) decidido a escolher meu time. Acabamos conseguindo entrar na área reservada à imprensa. O Flamengo ganhou de 4x0 e eu decidi não ser tricolor. Vendo a festa e a provocação da imprensa flamenguista, eu decidi não ser flamenguista. Entre os outros dois times, escolhi o que tinha a camisa parecida com cinto de segurança e não o que parecia camisa de presidiário, seguindo todo o meu conhecimento baseado em histórias em quadrinhos. Eu acreditava sinceramente que tinha virado vascaíno assim. Um dia, minha mãe mandou a real: eu tinha virado vascaíno por causa do meu tio, cruzmaltino, que sempre levava a mim e ao meu irmão para jogar bola com o nosso primo no aterro. Na época eu neguei, mas aos poucos a ficha foi caindo. Era verdade. Eu havia construído a fábula após ter escolhido o time.

Por isto, insisto: torcer está diretamente ligado às relações humanas. E, portanto, não se define completamente quando se escolhe um time. Quem nunca passou por uma fase mais fanática, outra distante do futebol, para voltar a acompanhar intensamente anos depois? Torcer é uma escolha constante e normalmente ligada à proximidade com outros torcedores, ambos alimentando as devoções recíprocas.

A minha relação com o futebol mudou quando a conheci. Ela é apaixonada por futebol e pelo Fluminense. E sofre intensamente a cada derrota. E sofre intensamente a cada vitória. Passei a acompanhar o tricolor. Nos estádios, via o desespero e a revolta no olhar dela, intercalados por maravilhosos segundos de alegria. Como diz a música Emoldurada, aprendi a gostar do fluminense por tela. Torcemos juntos na final do carioca de 2005 e na final da copa do Brasil do mesmo ano. Aprendi a torcer pelo Flu. Na copa do Brasil de 2007 e na libertadores de 2008, aprendi a amar o Flu. Na verdade, eu continuo apaixonado mesmo é por ela e pelo seu amor às três cores que traduzem tantas coisas para mim... A campanha do Brasileirão este ano, que começou com a virada de 2009 me deu esta certeza; eu amo o Fluminense. Mais do que isso: eu amo o Fluminense dela.

Se por acaso, tiver alguém lendo este texto, sei o que está pensando: “vira-casaca! Esse aí não é torcedor de verdade!” Lamento muito, mas isto não me incomoda. Continuo vascaíno, continuo torcendo para o Vasco sempre. E torço para o Fluminense quase sempre. E nesse momento em que a imprensa quer ensinar o torcedor a torcer (vide as críticas aos que torcem para derrota do seu time com o intuito de prejudicar o rival) eu faço a pergunta: quem pode me dizer a maneira certa de torcer? Quem detém esta resposta? A pessoa que tentar responder a isto vai se achar no direito de definir não só como eu devo torcer, mas também como eu devo pensar, como eu devo agir e, pior do que tudo, como eu devo amar. E depois de quase 8 anos de amor por ela, posso afirmar: o amor é louco e livre, posto que é amor. A mais indomável das relações humanas.

domingo, 24 de outubro de 2010

futebol elitizado

“Embora à primeira vista uma creche canina possa figurar como mais uma excentricidade do mundo pet, vale ressaltar que o serviço é recomendado por especialistas em comportamento animal, como a psicóloga de cães Daniela Prado.” Revista O Globo, 24/10/2010

Couto Pereira, última rodada do Campeonato Brasileiro do ano passado: O jogo entre Fluminense e Coritiba terminava empatado. Com isto, o Fluminense concluiu uma arrancada emocionante, mais que improvável e continuou na primeira divisão. O Coritiba caiu. Ato contínuo, torcedores do Coxa revoltados invadem o gramado e entram em confronto com policiais e árbitros.

No mesmo dia, à noite, Telmo Zanini, comentarista do Sportv fala sobre o ocorrido:
- Também, com ingressos a 5 reais, vocês queriam o que? Só podia dar nisso.

Tentando consertar o comentário obviamente elitista, ele afirmou.
- Quando os dirigentes não valorizam o espetáculo, botando ingresso a 5 reais, os torcedores também não valorizam.

O que está por trás deste comentário? O ingresso tem que ser caro não apenas para garantir mais renda a um clube, mas para garantir um público mais seleto nos estádios. Associar violência/povo e elite/civilidade é um preconceito quase tão velho quando andar pra frente. Mas as reformas nos estádios, preparando-os para receber os turistas e eliminando áreas populares referendam este discurso.

A ideia de uma modernização conservadora do Rio ganhou força total com a confirmação da copa e da olimpíada no Brasil. Para dar um exemplo, há uma semana o jornal “O Globo” fez uma reportagem sobre os bondinhos de Santa Teresa mostrando como ele não atende às “necessidades” dos turistas. A que interesses atendem um jornal que faz reportagens como a citada no início deste texto? O futebol faz parte deste processo.

Além disso, a TV tem seus interesses atendidos em detrimento dos interesses dos torcedores. Os jogos durante a semana começam às 21:45 (depois da novela) e que se dane quem trabalha no dia seguinte. E que se dane quem não tem transporte para ir para a casa depois do jogo. Chega ao ponto da gente ter que explicar para um turista que os jogos agora começam às 22:00 por causa do horário eleitoral na TV, que atrasou a “programação”.

O negócio é tão vergonhoso que, para tentar dar uma amenizada, o PFC e o clube dos 13 lançaram uma campanha: “vá ao estádio”. O PFC (pay-per-view de futebol) lançando esta campanha equivale ao Mcdonald’s fazendo campanha contra o câncer.

Torcedores de futebol são vistos cada vez mais como problema, não como parte do jogo. Hoje, teremos mais um triste episódio neste sentido. O clássico Cruzeiro X Atlético, em Minas Gerais, mais uma vez, terá apenas uma das torcidas no estádio, no caso, a do Cruzeiro. A ideia é acabar com as brigas no estádio. Não acaba, mas acaba com a graça. Os Cruzeirenses vão provocar um adversário que não estará lá. Os Atleticanos estarão espalhados, ouvindo no rádio ou vendo pela TV. E, em caso de gol do seu time, ouvirão o silêncio ecoar no estádio.

Uma das “danças” mais bonitas em um jogo de futebol, para mim, é a de um pênalti perdido. A torcida que gritava e pré-comemorava, se cala. A outra torcida, antes calada, festeja ao ver a sua pequena esperança se tornar certeza. A alegria muda de lado em um chute. Isto não acontecerá hoje, em Minas Gerais.

Já no Engenhão, as torcidas de Vasco e Flamengo quase não vão ouvir uma a outra. A acústica não permite, o estádio não foi feito para nós, torcedores. É capaz até de um torcedor, desavisado, achar que a sua torcida “calou” a torcida adversária. Mas quem “calou” foram os formuladores deste estádio belíssimo e sem alma.

Como enfrentar esta avalanche contra os nossos interesses de torcedor? Primeiro passo: conheça a ANT (associação Nacional de Torcedores), filie-se e participe dos seus atos e maniFESTAções. Só nós, torcedores, podemos gritar pelo que nos interessa. E gritando junto, fica sempre mais bonito. E mais forte.

Pedro Castanheira de Freitas, vascaíno e filiado a ANT.

Conheça e filie-se a ANT:
http://torcedores.org/

Primeira manifestação da ANT:
http://www.youtube.com/watch?v=o-qdeMPsxIE